domingo, 13 de outubro de 2013


Para Juliana, uma amiga de outras datas....

Ruds Olhava imóvel, meio que, como quem nada vê, o jardim….

O dia estava frio, mas o jardim sempre fora um tipo de bálsamo curador aos seus olhos de quem vive sem ter alma....

Tentava não pensar, quanta inutilidade era pensar nas coisas que lhe doíam por dentro ..... e já fazia tanto tempo desde que Lucas partira, ela já havia ate perdido as contas dos dias exatos sem ele em sua cama olhando para o teto, ele parecia tão dela nessa hora, e não pode conter os suspiros que seus pensamentos tortos lhe causam…. Coisa triste é a dor de amor… e o tempo de Ruds havia parado, e ela ja nem conseguia se olhar no espelho , o seu reflexo lhe assustava, tinha medo das tristezas que via ali escancaradas. 

Os seus devaneios a haviam levado a um caminho quase que sem volta, quanta bobagem, que tola ela era em achar que a ausência de amor próprio poderia servir para aproxima-la de alguém… Ela não queria ser, apenas, a lembrança insípida guardada em algum lugar inabitável, impenetrável, na alma dele, pois é, e essa certeza a torturava ferozmente, a de que era somente isso que ela representava, uma lembrança do quase nada que nunca foi.

Desta vez o corte fora profundo…

Não, não era somente uma fuga, em absoluto, não era somente pela fuga, ou pela auto-mutilação… Era algo mais, mais além e mais profundo do que o todo, junto e misturado, era o vazio, a desistência de si mesma por si mesma, o adeus a alegria, as portas abertas do inferno a oferecer consolos, porque o inferno é a culpa, também e ou unicamente….

E Lucas, onde estaria Lucas agora? ela o sabia, é fato, acaso ele sofreria em saber que ela andava em companhia do demônio, e que não sabia mais encarar a luz? que ela não poderia e talvez nem quisesse mais largar das mão trevosas que a faziam segurar a navalha? Acaso ele sentiria culpa? ou remorso? acaso um tico de amor que fosse? um tico bastaria? pergunta ela a si mesma com os sonhos no chão ja tão afogados em lagrimas….

O que considerava muitíssimo engraçado, era que a dor, essa dor miserável, que tinha o poder de rasgar as suas carnes, não a deixava alienada, como era o seu desejo, pois não saber ou não entender tem os seus encantos, mas ao contrario e para seu azar, ela, a maldita dor, vinha acompanhada de uma lucidez que machucava ainda mais quem ja quase não se aguentava em pé… que paradoxo!! nessa sua agonia, ela conseguia tão bem distinguir sua ilusão, que sustentara em forma de fascínio, conseguia ver que nesse tempo, em todo esse tempo, em que esteve com ele, tão dele, tão inteira, nada recebeu, apenas doou, apenas sentiu e amou sozinha…. e essa certeza era daquelas que nunca deveriam serem sentidas, daquelas certezas que acompanham a impotência, que mostram que as vezes, nada do que somos é o bastante para alguém…… 

Ele nunca nem ao menos disse que a amara… 

Levou novamente os olhos ao jardim bem cuidado, e ficou se dando conta de como cuidara mal de si mesma… a beleza daquelas rosas lhe jogava na cara de uma maneira direta e sutil o quanto havia falhado consigo mesma, em sua responsabilidade de estar inteira, de sobreviver, de saber que sempre um dia seria seguido de outro, de que o tempo não perdoava e era implacável com os tolos… era constrangedor a mensagem que as rosas em seu mundo mudo, lhe gritavam por entre as pétalas tão vivas…

Ah e aquelas marcar, ela baixou os olhos e deu de cara com elas, tão vivas, tão acesas, tão doloridas, provando a contradição de que o que foi feito para esquecer, sempre que visto, faz relembrar…

A navalha marca não somente a carne, ela dilacera o que tem abaixo, por entre e por sobre ela. 

O problema era que Ruds, ela era daquele tipo particular de pessoa que precisa sentir, ela gostava de sentir, mesmo que o sentir fosse para esquecer, e ela se tornou escrava do ato em si, porque desde que a porta se fechou por traz da saída de Lucas, naquela cena patética que teimava ficar se repetindo em sua mente, ele carregando umas poucas roupas que as vezes deixava, por esquecimento com ela, com cara de bobo, e aquele sorriso, quase que a matando, que somente quem esta apaixonado pode carregar, desde aquele fatídico dia, ela quase ja nem sentia mais nada, e não sentir incomodava.

Talvez chorar, gritar, socar um travesseiro, segurar na mão de um desconhecido, talvez isso a ajudasse a lidar com suas sombras mudas e seus fantasmas barulhentos, talvez isso tornasse possível fugir um pouco de si mesma e de suas lembranças, gostaria de não pensar em Lucas, mas ele era quase pior que cocaína, e pensar nele sorrindo, em sua boca perfeita, era inevitável, e lembrou de quando se cortou a primeira vez, lembrou da sensação boa, e também do motivo triste, o que foi mesmo? um deboche? uma ironia? um comentário maldoso sobre seus pouquissimos quilinhos acumulados com uns poucos momentos de alegria? na verdade e de fato, fora o olhar debochado dele que a feriu de morte, quando ela, entusiasmada, falou do seu sonho de se deixar fotografar… ele tentou, claro, dizer que era loucura, e que ela estava exagerando, mas ela viu, nitidamente se dera conta, do deboche, do escárnio, da falta de consideração, ou respeito dele para com ela…  e no torpor do ato, enquanto se cortava, aquilo tudo era esquecido, era diminuido, ficava apenas ela e a navalha em um mundo preto e branco e sem sonhos….. e ela encontrava a paz em esquecer, e sentia-se bem, muitoooo bem, esquecendo, não tinha a dor de dento, era somente a dor do corte, e essa era bem mais suportável, essa ela podia tolerar, e foi ai que ela viu que depois, certamente, iria querer mais…

Lucas nunca perguntara sobre as constantes e insistentes marcas em sus pernas, e se ele as havia percebido, ate hoje ela não sabia, e se ja desde antes ela havia desistido das saias, agora a moça triste e de olhar parado, havia adotado uma nova maneira de se vestir, sempre com calças largas e pretas, sempre com roupas que a deixassem quase imperceptível em sua insanidade, tinha a certeza de que as calças não deixariam ninguém perceber as suas cicatrizes, aquela era uma magia só dela, assim como ninguém deveria saber que Lucas havia partido pois se apaixonara por sua irmã, ela nem continha os risos misturados com lagrimas, so em pensar sobre isso, sua melhor amiga, sua referencia de família no mundo, e eles estavam de fato e direito apaixonados, e era tão lindo de ver, apesar de insuportavelmente dolorido, o rapaz fútil e insensível, agora comprando flores e escrevendo versos, flores que ela nunca veria, versos que ela não merecia…

Era praticamente impossível não pensar sobre isso, não sofrer com os tantos porques, não sentir inveja…. e somente a sua amiga navalha, nessas horas de tortura, era sua amiga fiel e de utilidade inimaginável….

E hoje seria o dia do casamento deles, e eles, tolos e vaidosos, tinham a certeza convicta de que ela, superara a traição e  poderia conviver muito bem com este fato,  pela pessoa racional que aparentava ser... 
É porque a dor de alguém nunca dói em quem a causa…. e como ela sempre fingia que estava tudo ótimo, porque mesmo sofrendo, ela podia ver que os sentimentos de Lucas por Manuela, eram sinceros, e essa certeza, que não era consolo, era mais como punhalada, a levava a loucura, mas por amor a irmã, que não havia pensado nela, ou lhe poupado ao roubar e ou enamorar-se do homem que ela amava, mesmo que não correspondida, engolia, e sorria, e dizia estar tudo bem…

Ja colocara o seu vestido rosa, pois usar preto em casamento não estava de acordo, e ela, nem em sonho, pensara em querer atrapalhar nada que fosse, de mangas compridas e caimento perfeito, estava quase que bonita, apesar de apática, mas não conseguia sair de casa, estava ali parada, olhando o jardim perfeito do lado de fora, foi quando disse a si mesma, que não iria antes de se dar um corte, mesmo que pequeno, onde quer que fosse, sem ele, não conseguiria suportar tamanha prova da vida, e cortou, mas cortou fundo, como quem quer esquecer para sempre, e vendo o sangue esvaindo, colorindo seu vestido trabalhado, ela pensou no buquet, quem o teria pego? e sorriu... estaria Manuela radiante, estaria ela feliz? desejava que sim, do fundo de seu coração ferido, desejava que a irmã fosse feliz... e quase sem pensar, cega de tantas lagrimas que se faziam presente sem convites, ela cortou onde sabia que deveria, ou nao, mas mesmo assim o fez…. e sorriu, sentia-se confusa, mas estava feliz, pois sabia que o sono sem sonhos a esperava e se deu conta do que desejava naquele momento meio que misto de magia e sordidez, com todo o resto de sua pouca vida ali presente, desejava ser ela a pegar o buquet da amada irmã, e suspirou, sorriu novamente e dormiu, com uma expressão serena e triste, o tão esperado sono sem sonhos, consolador, acusador e sem perdão….

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