domingo, 20 de outubro de 2013

Depois que choveu em mim...


Eu gostaria de ter nascido princesa… risos, pois eu nasci plebéia...
Eu sonhei com psiquiatria, mas abandonei a universidade antes mesmo de termina-la. Coisas da vida.
Eu queria muito ter amado meu primeiro amor, para a vida inteira, mas descobri muito cedo que para sempre , é muito tempo... Snif!!!
Eu desejo de todo coração ser eternamente magra, mais risos, pois já me vejo engordando uns quilinhos, marcando "mais"presença no mundo...
Eu construi castelos imensos , sem bases sólidas, então me restou quase nada, nem lembranças!
Eu fiz muitas coisas certas em momentos errados, sempre tentando!!!
Eu tenho amigas que amarei para sempre, mesmo que me magoem ou vice versa!
Eu sou uma estrangeira na minha terra, mesmo sendo de lá, nata
E continuo sendo estrangeira nas terras que me acolhem , não tem muito o que fazer, é a sina de quase todo imigrante...
Eu sonho acordada o tempo inteiro, até porque, quase não durmo...
Eu não tenho mais fé em quase nada, perdi a crença, mas sei que existe e sou mais culpada ainda.
Eu gostaria de poder apagar meu passado dolorido, mas ele serve para me lembrar  dos caminhos que não devo tomar e onde não devo voltar.
Eu poderia chorar dias inteiros , mas eu sempre escolho sorrir !!!
Eu sobrevivi a muitas tormentas, apesar  dos meus medos e de mim mesma.
Eu decidi amar, mesmo sabendo que nada na vida é certeza.
Eu prometo a mim mesma, que vou aprender a ser mais tolerante comigo, perdoar minhas arestas e aceitar as  minhas limitações.
Eu estou aprendendo a ser livre novamente, e isso me faz um bem inenarrável.
Sinto uma alegria inexplicável por me sentir capacitada para a felicidade e principalmente por escolhe-la, dentre tantas outras coisas mais fáceis de se obter.
Eu perdi o medo do espelho e ja não vejo lá, uma inimiga, ou concorrente, refletida.
Eu aceitei ser eu mesma e decidi não me cobrar o impossível.
E assim eu sigo, um dia de cada vez, um sonho por noite…. e um sorriso a cada hora que se vai.
Ouso, vivo e sou, e isso me basta.
Eu me basto, demorou, mas consegui
Amém.

Karla Rensch.

Menino Vadio.

Vem, meu menino vadio,
Vem rápido e sem  mentir pra ninguém...
Venha, mas por favor, sem fantasia,
Que da noite pro dia, você não vai crescer

Vem, e por favor não me evites,
Nem meu amor e ou meus convites
A minha dor ou os meu apelos
Que eu vou envolver-me em seus  cabelos,

Vem  logo, perder-se em meus braços
Descansar seu cansaço

Vem que eu lhe quero, eu lhe aceito fraco,
Vem que eu lhe quero tolo, ate mesmo bobo
Vem que eu lhe quero meu….

Ah! eu queria te dizer que o instante de te ver
De novamente lhe ter, e de me perder em você
Custou tanto penar, demorou a chegar…
E eu não vou me arrepender

Só quero lhe convencer
Que se eu vim assim, quase nua de porquês…
Quase que despreparada…
Afobada, atormentada,
Foi pra não morrer de tanto lhe esperar

E quero lhe contar
Das chuvas que apanhei
Das noites que varei
No escuro a lhe buscar
E quero lhe mostrar
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei,
Que eu insisti em destronar…

E agora que eu cheguei, aqui longe, no além mar...
Eu quero a minha recompensa,
Eu quero a tua presença.

Quero ser a sua prenda, consumida, devorada,
Totalmente apaixonada, louca pelos carinhos seus.

Karla Rensch.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Anjo profano.

De anjo ele só tinha o nome, Serafim, era desses de olhar levado e alma profana, dono de um sorriso devastador quase sempre escondo em um cigarro, tinha a personalidade  muito impar, esse moço, e chegou na vida dela pela internet, de fato e de direito, nunca o vira ou sequer tocara a sua pele, ela apenas o imaginava, muito e quase sempre quente, era assim que o enxergava, por referências tinha apenas as muitas palavras trocadas, e isso, agente sabe que é nada

O conhecera em uma época negra de carência extrema, deprimida, sofrida, quase que mal comida, e muito dolorida, acreditou piamente ser encanto o que era libertinagem, e pensou que por ter nome de anjo, o caráter condizia. 

Essa troca de palavras, e consolos e sorrisos durou quase que meio ano, entre as vezes que ele sumia, evaporava, parecia quase encanto, feitiço, quebranto, e ela que queria acreditar em fadas e ainda mais em príncipes, então se prostrava a rezar e acreditar e temer que algo de ruim, em seu sumiço, pudesse haver.. Que tola… E quando ele dava as caras, lindos sorrisos e falas, ela logo esquecia que passara dias e mais dias em agonia…. que raiva!!!

Um dia descobriu que estava apaixona, ai coitada, como é que pode ser isso? quem pode sustentar o amor com uma sombra? uma ideia que não vinga, um sonho inacabado? Que triste que era, só de ver ja desconcertava, uma moça meio que boba e um anjo todo peralta, no que poderia acabar isso? e ela não conseguia sair daquele cíclo, pensar nele era a sua maior agonia, ela queria tudo largar e ir, la longe, além mar, com ele se encontrar…. tão terrível esse anjo, acho até que este, deve ser um desses, que estão caídos do paraíso, que conservam um ar sedutor e acabam com os sonhos de quem encontrar pela frete… num sopro gélido sem esperanças… e nem eu ou você ou  ninguém pode culpa-la, aquele anjo era quase que um Deus, em sua forma perfeita de ser o que era...
em sua arte de faltar com a verdade, em iludir descaradamente, era um mestre..

Um dia que não sei se foi frio ou quente, ela se deu conta que ele tinha ido embora, sim, e para sempre, sem nenhuma palavra, com nenhum adeus, dando nenhuma explicação, e o tempo passou, e ela superou, mas por dentro ainda lembra do efeito causado por tamanho estrago, e nessas horas, mesmo depois de tantos anos, coisa que em se ver parte o coração de quem olha, pegamos ela, ainda, escondendo que esta ferida, e mantendo sentinela, a vigiar o seu email, ou o correio, ou o que seja, na esperança de que ele volte, ou ao menos diga um oi…, e minta descaradamente, fazendo que ela fique novamente contente…. 

E se pode culpar alguém por amar?
Boa sorte em sua espera. 



terça-feira, 15 de outubro de 2013

Delírios


Delírios.
Delírios de um tempo perdido em vastidões de negativas....
Descompasso nos dias que jamais serão os mesmos.
Possibilidades mortas em terreno neutro.
Solidão.
Amigos jogando em times opostos, onde as artimanhas são vagas.
E as possibilidades, inatas.
Acreditar, não crer, viver e deixar de ser...
Ocultar o nada para descobrir o tudo.
Sou eu, é você, fomos o que nunca mais será.
Somos o nada daquilo que pensamos ter.
Temos o tempo apenas para, tentar, consertar o que nossa mão estragou.
E tudo agora é passado.
E o nada é a resposta que se vê no rosto daquele que ficou chorando no escuro.
E as paredes são úmidas, porque sedento é o rosto de lagrimas que aliviam o peito.
E o nó se fez.
E é triste, porque desatar é o erro.
Mas quando o erro significa viver, como é que fica?
E eu, e você?
O que será de nós, existe nos?
Porque o amanhã está aí, ele bate na porta, só faltam algumas horas.
Tentar???
Desculpe, eu não quero.
Esquecer???
Ironia…. não posso.
E no meio da minha negativa, tento não acelerar, ou será acalentar? o coração.
E no meio das rogativas disfarço o sorriso encabulado que teima em sair, meio assim assim, do lado esquerdo da minha boca triste.
E no meio, com as incertezas, chega imperador, a cruel afirmação do meu amor!
Insano.
Despudorado.
Vivo.
Transbordando.
Cheio de arte e de gozo.

Texto escrito em homenagem a uma moça que trocou o grande amor por um erro. Pois é moça, existem erros que marcam para sempre.

Karla Rensch.

{"...Gostaria de poder te abraçar, de te dar um abraço tão forte, mas tão forte, que até para Deus seria impossível nos separar…"
Desconheço a autoria dessa citação. }

domingo, 13 de outubro de 2013


Para Adriana.
Uma típica mulher de fases.
Pernambucana. 
Perdida em si mesma.
E que achou que era a Colombina de um Pierrot que nunca tiraria a sua máscara.
Sempre fora bela, mesmo sem o saber ser, muito rica daquela beleza que incomoda de tao pura, pele branca, olho claro, cabelo sempre vermelho, por opção, não por natureza, corpo esguio, alma de guerreira, aventureira, sonhadora, apaixonada pelo amor.

Sua História...

Lembro o dia em que me dei conta dela, a sorrir assim, meio amarela, tal como uma desesperada que necessita de ajuda, mesmo sem nunca o admitir , estava assim extasiada e de pessoas rodeada, era uma equilibrista em sua dor... e ao me dar conta dela, também me dei conta um tanto de mim...
Na época, estava ela, com os dois mundos a brigar.... com o mundo que era dela e também com o mundo do sonhar, era pleno carnaval.... 

E ela, a Colombina apaixonada, a suspirar estava, assim por um Pierrot, muito estabanado, esquecido, avoado.... e também um bocado malvado... e ela que era ainda um pouco menina, e um tanto perdida, se encontrou naquele amor com data marcada para terminar em uma quarta-feira de cinzas, que de cinzenta nao teve nada, e o amor de teimoso que estava, decidiu esperar o sábado do bacalhau, para quem sabe assim se colocar um ponto final, mas que nada, entre os desatinos dos momentos que não deveriam se repetir, decidiu , arduamente e muito eficiente, ficar e esperar um próximo fevereiro, ou marco, ou tavez dezembro....


Ahhhh o desengano disfarçado de amor.


Enquanto isso a Colombina se perdia de e em afetos.


Pierrot , mesmo sem saber o que fazer da vida, que (por maldade ou sabedoria) esquecera de dizer que tinha, e quando de certo o fim do carnaval chegasse e a hora de tirar a sua máscara apontasse, não estava de fato preocupado se a Colombina choraria.


E a menina Colombina, Adriana, hoje Profana, fez de conta que não ouviu, quando alguns argumentos insanos de um pierrot guloso, que jamais se contentou em comer feijao e arroz todo dia, pulavam fantasiados de agonia em frente aos seus olhos estupefatos.... e por desvario da mente, que por amor se passou, mesmo que indignada, consentiu em perdoar o pierrot.


Coitadinha da Colombina, agora será apenas mais uma Joaquina entre tantas outras inas que por pierrot já tinham passado, esqueceu-se de suas tantas sinas e acabou acreditando em um Pierrot muito mal intencionado.


E por assim estar vivendo, entre o real e o inimaginável pensou a Colombina ter o mundo em suas mãos, e esse mundo estabanado, resumia-se, em um rosto mascarado.... Ahhh e de nada adiantava os tantos conselhos dados, com eles, ela trançava colchas, para embalar o seu amado.


Mas o destino é sorrateiro, e neste caso, jamais seria bondoso, um dia, amargamente, resolveu dar uma sacudidela em Colombina, e por maldade ou pena, combinou com o vento e também com o tempo, juntos apresentaram a face da dor à menina....


E foi assim que aconteceu, em um setembro que nada tinha de especial, ou de fevereiro, Colombina achou de levantar mais cedo, por que o vento fazia frio no seu quintal, e resolveu se dar conta de Pierrot.... e foi assim, junto com o tempo, que o vento sutilmente ao seu ouvido sussurrou "shiiii..Ahhh Colombina, menina, por que tu não vais ao quardo da frente, ó demente...." e a menina como que simplesmente sacudida fora por um repente, se viu de pé no quarto da frente.... 


Então aconteceu... E teve fim o seu carnaval de desvarios.


Pierrot estava a abraçar uma outra colombina, Simmm, que não era a menina, que tavez tivesse também serpentinas.... mas definitivamente, aquela não era colombina...era uma outra talvez menina, uma que lá na casa da colombina, ajuda fora buscar, e a Colombina de bondosa acolheu a tal senhora que agora estava a lhe apunhalar.


Colombina atarrentada , não pode nem a porta abrir, vislumbrou a terrivel cena, e recuou em seu sorriso de açucena a sua dor de muitas penas.


Fechou a porta a Colombina, e ficou sentada, estatalada, vendo o vento e o tempo gargalhar. Inebriados de maldade, revestida de amor a verdade.


A máscara quebrara enfim...., Tantas eram as suas dores que a menina se partiu em tres.
E calaram os seu sorrisos, mas buscou num improviso, suas forças para lutar.


E de maluca que ela era, esperou o Pierrot, que estava mascarado de mentiras, armada com sua dor de Colombina ofendida.


E piorrot estava também aturdido, pois foi pego de improviso, jurou que colombina, agora estava a delirar.


E Colombina entao sorriu, foi ai que entendeu, e que pela primeira vez, viu de fato o seu Pierrot desmascarado, e deu o seu adeus sentido, comovido e muito doído... Ele quase nem ouviu.

O que eu sei é que ele, o Pierrot nunca mais a viu...

Então passou o tempo, muitos anos e eu reencontrei a menina, que agora nao é mais a Colombina de um carnaval que já passou... Esta feliz, é fato, grávida de uma Bailarina, casada e amante do amor. olhei bem nos olhos dela, e ainda vi aquela sombra da dor. 


Perguntei, mas ó menina, por que é que ainda choras o que passou,??? e ela que foi a dona da alegria, e aposentou a colombina num vestígio de sorriso, respondeu-me sem querer calar, é que noticias o Pierrot cisma em me mandar..


Mas eu , de incredula que estava, perguntei em tom demente, alma cheia em desabor,....Colombina que loucura, acaso, sob tortura, estas a pensar no Pierrot? ??? e ela me disse, assim meio que triste, que nao é isso que se sucede. E explicou-me em verso que pierrot, quer agora se passar de doutor, e que depois de vender sua a alma o diabo, quer resgatar o seu amor....


E eu fico estarrecida, ate mesmo constrangida, esperando as respostas da Colombina, e pensando, meu Deus, que sina....Coitada dessa menina...

E então me diz ela por entre os dentes, ate meio violentamente, com aquele olhar que so ela tem... que pode o Pierrot , até com o mar em verso, querer lhe presentear, que dele jamais ela deseja algo saber, ou ter.... Logo agora que encontrou o pouso, o teto, e o braço forte, onde cala as dores e dorme... Quer o Diabo voltar a lhe tentar???? Grita não sem verso ou trova, mas com toda alma, pois agora ja cresceu.


Pobre dele, quem ri sou eu, pois nao sabe, que agora a Colombina, nao vive mais a sonhar, agora a menina é o sonho de um alguém, que de surpresa tinha entrado na estoria do convém.


Suspirei aliviada, a Colombina esta curada , tudo é so uma piada, uma risada , mesmo que triste, nesse mundo de vai e vem.

Dores de partir....


E são tantas as certezas inatas que invadem esse meu peito solitário.


E vejo você sorrir, olho dentro dos seus olhos e eles ja não me dizem nada, absolutamente nada, logo eles, que por tanto tempo, foram uma das razões do meu viver

Fico a perguntar-me onde foram parar as nossa raízes, as  doces lembranças de uma história quase que bem vivida.

Estará tudo morto agora?

A certeza de que tudo o mais são sombras me faz indagar sobre o que fizemos com as nossas vidas?

Desde quando tudo tornou-se assim assim , meio la, meio cá, inexpressivo? 

Desde quando estamos caminhando em círculos sem sair do lugar?

Ahhh não quero nada que seja morno, que esteja no meio do que quer que seja, eu  quero antes a gozo da risada da bruxa. Absolutamnte profano e intenso, eu quero tudo e muito mais… quero a sensação de que tudo vale a pena   simplesmente por existir, por estar sendo, acontecendo,  na vida de alguém...
Cansei das mentiras forjadas no calor da desilusão, por que o mais é algo que apenas já não queremos viver…. porque não querer também faz parte...

Nosso tempo passou....

Nossa história substituiremos por outra história, talvez mais bonita, talvez mais triste, talvez bem mais encantada… 

E vai ser cada um em seu caminho
E cada um com sua dor...
E o mais agora é nada, um nada que talvez não levemos nem nas lembranças.
É simples, creia, a gente é quem complica

Doces e amargas sensações...
Percas irreparáveis...
Sentimentos impossíveis de distinguir.
Vida a dois incapaz de se refazer.


Eu e você...
Nada mais que uma sombra.
Sombra maculada de saudade.
Por que é impossível não sentir.
E por que o inferno é a culpa.

Para a minha amiga que mora do outro lado do espelho.
Adriana, essa é sua.
E de quem é a culpa???
Provavelmente você não queria, eu entendo.
Ousar as vezes funciona , amiga!

Para Juliana, uma amiga de outras datas....

Ruds Olhava imóvel, meio que, como quem nada vê, o jardim….

O dia estava frio, mas o jardim sempre fora um tipo de bálsamo curador aos seus olhos de quem vive sem ter alma....

Tentava não pensar, quanta inutilidade era pensar nas coisas que lhe doíam por dentro ..... e já fazia tanto tempo desde que Lucas partira, ela já havia ate perdido as contas dos dias exatos sem ele em sua cama olhando para o teto, ele parecia tão dela nessa hora, e não pode conter os suspiros que seus pensamentos tortos lhe causam…. Coisa triste é a dor de amor… e o tempo de Ruds havia parado, e ela ja nem conseguia se olhar no espelho , o seu reflexo lhe assustava, tinha medo das tristezas que via ali escancaradas. 

Os seus devaneios a haviam levado a um caminho quase que sem volta, quanta bobagem, que tola ela era em achar que a ausência de amor próprio poderia servir para aproxima-la de alguém… Ela não queria ser, apenas, a lembrança insípida guardada em algum lugar inabitável, impenetrável, na alma dele, pois é, e essa certeza a torturava ferozmente, a de que era somente isso que ela representava, uma lembrança do quase nada que nunca foi.

Desta vez o corte fora profundo…

Não, não era somente uma fuga, em absoluto, não era somente pela fuga, ou pela auto-mutilação… Era algo mais, mais além e mais profundo do que o todo, junto e misturado, era o vazio, a desistência de si mesma por si mesma, o adeus a alegria, as portas abertas do inferno a oferecer consolos, porque o inferno é a culpa, também e ou unicamente….

E Lucas, onde estaria Lucas agora? ela o sabia, é fato, acaso ele sofreria em saber que ela andava em companhia do demônio, e que não sabia mais encarar a luz? que ela não poderia e talvez nem quisesse mais largar das mão trevosas que a faziam segurar a navalha? Acaso ele sentiria culpa? ou remorso? acaso um tico de amor que fosse? um tico bastaria? pergunta ela a si mesma com os sonhos no chão ja tão afogados em lagrimas….

O que considerava muitíssimo engraçado, era que a dor, essa dor miserável, que tinha o poder de rasgar as suas carnes, não a deixava alienada, como era o seu desejo, pois não saber ou não entender tem os seus encantos, mas ao contrario e para seu azar, ela, a maldita dor, vinha acompanhada de uma lucidez que machucava ainda mais quem ja quase não se aguentava em pé… que paradoxo!! nessa sua agonia, ela conseguia tão bem distinguir sua ilusão, que sustentara em forma de fascínio, conseguia ver que nesse tempo, em todo esse tempo, em que esteve com ele, tão dele, tão inteira, nada recebeu, apenas doou, apenas sentiu e amou sozinha…. e essa certeza era daquelas que nunca deveriam serem sentidas, daquelas certezas que acompanham a impotência, que mostram que as vezes, nada do que somos é o bastante para alguém…… 

Ele nunca nem ao menos disse que a amara… 

Levou novamente os olhos ao jardim bem cuidado, e ficou se dando conta de como cuidara mal de si mesma… a beleza daquelas rosas lhe jogava na cara de uma maneira direta e sutil o quanto havia falhado consigo mesma, em sua responsabilidade de estar inteira, de sobreviver, de saber que sempre um dia seria seguido de outro, de que o tempo não perdoava e era implacável com os tolos… era constrangedor a mensagem que as rosas em seu mundo mudo, lhe gritavam por entre as pétalas tão vivas…

Ah e aquelas marcar, ela baixou os olhos e deu de cara com elas, tão vivas, tão acesas, tão doloridas, provando a contradição de que o que foi feito para esquecer, sempre que visto, faz relembrar…

A navalha marca não somente a carne, ela dilacera o que tem abaixo, por entre e por sobre ela. 

O problema era que Ruds, ela era daquele tipo particular de pessoa que precisa sentir, ela gostava de sentir, mesmo que o sentir fosse para esquecer, e ela se tornou escrava do ato em si, porque desde que a porta se fechou por traz da saída de Lucas, naquela cena patética que teimava ficar se repetindo em sua mente, ele carregando umas poucas roupas que as vezes deixava, por esquecimento com ela, com cara de bobo, e aquele sorriso, quase que a matando, que somente quem esta apaixonado pode carregar, desde aquele fatídico dia, ela quase ja nem sentia mais nada, e não sentir incomodava.

Talvez chorar, gritar, socar um travesseiro, segurar na mão de um desconhecido, talvez isso a ajudasse a lidar com suas sombras mudas e seus fantasmas barulhentos, talvez isso tornasse possível fugir um pouco de si mesma e de suas lembranças, gostaria de não pensar em Lucas, mas ele era quase pior que cocaína, e pensar nele sorrindo, em sua boca perfeita, era inevitável, e lembrou de quando se cortou a primeira vez, lembrou da sensação boa, e também do motivo triste, o que foi mesmo? um deboche? uma ironia? um comentário maldoso sobre seus pouquissimos quilinhos acumulados com uns poucos momentos de alegria? na verdade e de fato, fora o olhar debochado dele que a feriu de morte, quando ela, entusiasmada, falou do seu sonho de se deixar fotografar… ele tentou, claro, dizer que era loucura, e que ela estava exagerando, mas ela viu, nitidamente se dera conta, do deboche, do escárnio, da falta de consideração, ou respeito dele para com ela…  e no torpor do ato, enquanto se cortava, aquilo tudo era esquecido, era diminuido, ficava apenas ela e a navalha em um mundo preto e branco e sem sonhos….. e ela encontrava a paz em esquecer, e sentia-se bem, muitoooo bem, esquecendo, não tinha a dor de dento, era somente a dor do corte, e essa era bem mais suportável, essa ela podia tolerar, e foi ai que ela viu que depois, certamente, iria querer mais…

Lucas nunca perguntara sobre as constantes e insistentes marcas em sus pernas, e se ele as havia percebido, ate hoje ela não sabia, e se ja desde antes ela havia desistido das saias, agora a moça triste e de olhar parado, havia adotado uma nova maneira de se vestir, sempre com calças largas e pretas, sempre com roupas que a deixassem quase imperceptível em sua insanidade, tinha a certeza de que as calças não deixariam ninguém perceber as suas cicatrizes, aquela era uma magia só dela, assim como ninguém deveria saber que Lucas havia partido pois se apaixonara por sua irmã, ela nem continha os risos misturados com lagrimas, so em pensar sobre isso, sua melhor amiga, sua referencia de família no mundo, e eles estavam de fato e direito apaixonados, e era tão lindo de ver, apesar de insuportavelmente dolorido, o rapaz fútil e insensível, agora comprando flores e escrevendo versos, flores que ela nunca veria, versos que ela não merecia…

Era praticamente impossível não pensar sobre isso, não sofrer com os tantos porques, não sentir inveja…. e somente a sua amiga navalha, nessas horas de tortura, era sua amiga fiel e de utilidade inimaginável….

E hoje seria o dia do casamento deles, e eles, tolos e vaidosos, tinham a certeza convicta de que ela, superara a traição e  poderia conviver muito bem com este fato,  pela pessoa racional que aparentava ser... 
É porque a dor de alguém nunca dói em quem a causa…. e como ela sempre fingia que estava tudo ótimo, porque mesmo sofrendo, ela podia ver que os sentimentos de Lucas por Manuela, eram sinceros, e essa certeza, que não era consolo, era mais como punhalada, a levava a loucura, mas por amor a irmã, que não havia pensado nela, ou lhe poupado ao roubar e ou enamorar-se do homem que ela amava, mesmo que não correspondida, engolia, e sorria, e dizia estar tudo bem…

Ja colocara o seu vestido rosa, pois usar preto em casamento não estava de acordo, e ela, nem em sonho, pensara em querer atrapalhar nada que fosse, de mangas compridas e caimento perfeito, estava quase que bonita, apesar de apática, mas não conseguia sair de casa, estava ali parada, olhando o jardim perfeito do lado de fora, foi quando disse a si mesma, que não iria antes de se dar um corte, mesmo que pequeno, onde quer que fosse, sem ele, não conseguiria suportar tamanha prova da vida, e cortou, mas cortou fundo, como quem quer esquecer para sempre, e vendo o sangue esvaindo, colorindo seu vestido trabalhado, ela pensou no buquet, quem o teria pego? e sorriu... estaria Manuela radiante, estaria ela feliz? desejava que sim, do fundo de seu coração ferido, desejava que a irmã fosse feliz... e quase sem pensar, cega de tantas lagrimas que se faziam presente sem convites, ela cortou onde sabia que deveria, ou nao, mas mesmo assim o fez…. e sorriu, sentia-se confusa, mas estava feliz, pois sabia que o sono sem sonhos a esperava e se deu conta do que desejava naquele momento meio que misto de magia e sordidez, com todo o resto de sua pouca vida ali presente, desejava ser ela a pegar o buquet da amada irmã, e suspirou, sorriu novamente e dormiu, com uma expressão serena e triste, o tão esperado sono sem sonhos, consolador, acusador e sem perdão….